Palavras e Números 

Um interpretador cristão da Cabala, o português D. Francisco Manoel de Mello, escreveu em seu “Tratado da Ciência da Cabala” que a língua hebraica é de origem celeste, pois nela falou Deus aos Patriarcas e ela serviu de instrumento aos divinos oráculos da antiguidade. Daí se infere que as palavras, letras e números representativos dessa linguagem contêm virtudes intrínsecas, próprias exclusivamente dela.

Na Cabala hebraica realmente promove-se a linguagem, de simples meio de comunicação entre os homens, em instrumento essencial da cosmogonia: “Disse Deus: haja luz – e houve luz”, escreve o Gênesis. A criação, pois, efetivou-se através do poder místico da palavra.

De acordo com o rabino Yehuda Busquila, para os cabalistas todos nós somos números, já que todas as letras judaicas têm um correspondente numérico

“As letras do alfabeto hebraico têm um valor numérico e todos nós temos um nome que é composto com estas letras. Somos números e o nome que nos é atribuído, quando nascemos, tem alguma coisa da essência divina, já que todas as letras fazem parte do nome de Deus”, diz Busquila. A numerologia da Cabala é baseada na interpretação do significados dos nomes e como todas as criaturas têm nome, e portanto são números, ela pode tratar de todos os fenômenos que existem no universo.

Cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico possui um valor numérico que varia de 1 a 400. O cálculo da equivalência numérica das letras, palavras e frases propicia a descoberta de inter-relações de diferentes conceitos e exploração de inter-relacionamento entre palavras e idéias. Para a Cabala, as equivalências numéricas não são coincidências. Desde que o mundo foi criado através da “palavra” divina, cada letra representa uma diferente força criativa. Portanto, a equivalência numérica de duas palavras revela uma conexão interna entre o potencial criativo de cada uma.

Para o rabino Adrian Godfrid, a numerologia é um tipo de interpretação, “uma ferramenta hermenêutica”. Para ele, ela não é o centro e não pode ser vista isolada do contexto judaico. “Faz sentido entender que o valor numérico das letras fala alguma coisa no contexto judaico, mas quando você faz isso para ver que número vai dar na Sena, aí você está fazendo um negócio que não tem nada a ver com isso. O contexto foi violentado”.

Sefirot – atributos, virtudes, qualidades divinas 

A Cabala trata dos nomes de Deus e da força inserida nas letras que o compõem. Seu objetivo é elevar o ser humano espiritualmente para ele poder entrar em conexão com Deus, e para isso ele deve ultrapassar algumas etapas, as Sefirot, um diagrama que representa os atributos, as virtudes e qualidades divinas e que pode ser entendido como um canal para o divino. De acordo com Gershom Sholem, no “Livro da Criação”, do qual foi originalmente tomado, Sefirot simplesmente significava números, mas com o gradual desenvolvimento da terminologia mística passou a ser traduzido aproximadamente por “esferas” ou “regiões”, mudando sua acepção até que passou a significar a emergência de poderes, virtudes e emanações divinas.

Na Cabala, Deus é chamado de Ayin, que significa “Nada”, em hebraico. Por estar além da existência, Deus é o infinito, pois incorpora tudo que existe e que existirá. Tudo que importa vem de Ayin Sof e volta no fim para ele que é o nada absoluto. Apesar de Ayin Sof em si mesmo ser além de qualquer compreensão, ele se faz conhecer através das dez Sefirot.

O ato divino é visualizado simbolicamente com a idéia de que do Ayin Sof, ou da Luz Infinita que envolve o vazio, emana um feixe de luz que penetra da periferia em direção ao centro. Este feixe de vontade divina se manifesta em dez etapas de emanação. Desde a Idade Média, estes dez estágios são chamados de Sefirot e expressam os atributos divinos.

A estrutura do diagrama da Sefirot, que algumas interpretações chamam de Árvore da Vida, contém todas as leis que governam a existência, porque revela o processo universal de equilíbrio entre o alto e o baixo, os princípios ativos (direita) e os passivos (esquerda). O influxo divino pode ser traçado em detalhes ao longo dos caminhos entre as Sefirot (designados pelas 22 letras do alfabeto judaico) e através das tríades que os ligam uns aos outros. As cores aqui distinguem entre as tríades funcionais ou laterais (vermelho ativo e azul passivo) e as tríades centrais, que denotam níveis de consciência e vontade (verde, violeta, e amarelo).

Os quatro grandes círculos representam os níveis dentro de uma única Árvore, que corresponde às quatro dimensões da realidade ou simbolicamente à raiz, tronco, galhos e frutos ou às quatro letras do mais especial nome de Deus, YHVH. Estes círculos também foram vistos como níveis ou degraus. O primeiro, associado com o fogo, está perto da Coroa (Keter) e é visto como pura Vontade (chamado de Deus). O segundo, associado com o ar, simboliza o Intelecto (a criação Divina). O terceiro nível, associado com a água, é visto como uma expressão da Emoção (a formação Divina). O quarto e último, associado com a Terra, fala da ação, das implementações práticas de tudo que houve antes (ação Divina). Apesar de ser altamente complexa, a Árvore da Vida é uma imagem da Unidade Divina.

Para a Cabala, o fluxo divino através das Sefirot para os quatro mundos da humanidade não é o único caminho. Ou seja, não são somente as ações divinas que têm impacto sobre nós; nossas ações individuais também repercutem cosmicamente e ajudam na reparação do Universo, pois Deus precisa do universo e da humanidade para ser verdadeiramente Deus, para alcançar todo seu potencial divino. Se Deus não tivesse necessidade do universo, porque ele o teria criado? – perguntam os cabalistas.

Fonte: http://www.terra.com.br/planetanaweb/flash/transcendendo/religiao/cabala.htm


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